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Ameaça de envenenar água leva estudantes a protesto na UFMS
Jovens percorrem campus, relatam medo nas aldeias e cobram proteção para comunidades indígenas
| GUSTAVO BONOTTO E JUDSON MARINHO / CAMPO GRANDE NEWS
Estudantes da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) fizeram, na noite desta quinta-feira (29), em Campo Grande, uma manifestação para cobrar proteção aos povos indígenas diante das ameaças e de denúncias de violência no interior do Estado. O ato ocorreu quatro dias depois do 2º turno das eleições presidenciais, período em que mensagens sobre envenenar a água de comunidades indígenas provocaram investigações e pedidos de providências às autoridades.
A mobilização começou ao lado da Biblioteca Central da universidade. Os participantes seguiram até a entrada principal do campus, na Avenida Costa e Silva. Durante a caminhada, gritaram palavras de ordem como 'Demarcação já' e 'Sangue indígena nunca mais'.
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A estudante de Ciências Biológicas Andiara Fernandes Alcântara, de 20 anos, moradora da terra indígena Buriti, participou do protesto para defender principalmente as comunidades guarani-kaiowá da região sul de Mato Grosso do Sul. Ela relatou preocupação com as ameaças e a segurança de quem vive nos territórios.
'Isso já, infelizmente, já vem acontecendo nas comunidades. Agora, depois dessa eleição, ficou, assim, uma situação mais terrível por conta do resultado que teve a eleição. Então o povo tá com medo, e por isso que nós estamos aqui hoje: pra pedir proteção, principalmente das autoridades aqui do estado, que esses povos possam ser protegidos ', afirmou.
Já a militante Giulia Terena, de 28 anos, nasceu na comunidade Marçal de Souza, em Campo Grande, e é neta de Enir Terena, apontada por ela como a primeira mulher cacique de Mato Grosso do Sul. Durante a manifestação, a jovem comentou a divulgação de áudios em que servidores municipais de Tacuru fizeram comentários ofensivos contra indígenas e um deles sugeriu colocar veneno na água consumida pelas comunidades.
Giulia criticou a primeira resposta do prefeito de Tacuru, Rogério Torquetti (PSDB), que atribuiu as declarações dos funcionários ao consumo de álcool e à reação ao resultado eleitoral. 'A gente teve uma fala, uma retratação do prefeito falando que era uma situação chata, que eu considero que não é uma posição suficiente que a gente espera da gestão do município', afirmou.
A militante disse que a Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) recebeu relatos de retaliações contra comunidades desde o início do 2º turno. 'Somos o quinto estado com mais população indígena no Brasil e a gente não vê uma proteção do governo do estado, a gente não vê uma preocupação do executivo e do legislativo em relação aos povos originários, que são tão populosos aqui no estado', declarou.
Questionada sobre a relação entre as ameaças e o resultado das eleições, Giulia afirmou que o preconceito contra indígenas não começou com a disputa presidencial. Na avaliação dela, a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode ter intensificado manifestações de hostilidade contra essas comunidades.
'A diferença da sede da violência, né, seja verbal e dos discursos de ódios proferidos para a oposição, é diferente do discurso de ódios proferidos para a população indígena. Não chega a ser algo político, já existe há muito tempo', afirmou.
O integrante da Unidade Popular Douglas Soares, de 26 anos, explicou que os próprios universitários organizaram a manifestação. Segundo ele, movimentos estudantis e partidos aderiram à mobilização para apoiar as reivindicações.
'Estamos aqui dando um suporte, mas ele foi puxado de forma orgânica pelos estudantes, junto com movimentos estudantis organizados aqui e com o suporte de partidos, justamente pela causa indígena. A gente tem outras situações já de violações de direitos humanos que se arrastam há muito tempo', disse.
Ameaças em Tacuru - O episódio que motivou parte da mobilização ocorreu depois do segundo turno das eleições presidenciais, realizado no domingo (25). Na segunda (26), a Apib divulgou áudios de uma conversa entre dois homens que reclamavam dos indígenas de Tacuru, município localizado a cerca de 420 quilômetros de Campo Grande.
Em uma das mensagens, um dos participantes sugeriu colocar veneno na água consumida pelas comunidades. A conversa ocorreu depois da vitória de Lula, que recebeu 62,19% dos votos válidos no município. Não há informação de que alguém tenha colocado qualquer substância no abastecimento.
O prefeito Rogério Torquetti confirmou ao Campo Grande News que os dois envolvidos são servidores municipais, lotados nas secretarias de Meio Ambiente e Infraestrutura. Um deles também trabalhava com caminhões-pipa utilizados no abastecimento das aldeias.
Na primeira manifestação pública sobre o caso, Torquetti atribuiu as falas ao consumo de álcool e à reação dos funcionários ao resultado eleitoral. O prefeito afirmou que havia chamado a atenção dos dois e pediu desculpas à população indígena.
O MPF (Ministério Público Federal) deu prazo de 48 horas para a prefeitura informar quais medidas adotaria para esclarecer os fatos e garantir a segurança das comunidades. A DPU (Defensoria Pública da União) também pediu a responsabilização dos envolvidos.
Nesta quinta, a administração municipal informou que abriu um processo para apurar a conduta dos funcionários e determinou o afastamento dos dois. Segundo a prefeitura, os atos serão publicados no Diário Oficial de sexta-feira (30). Em nota, o município repudiou 'manifestações de racismo, discriminação e ameaças contra povos indígenas'.

