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Da falência na 4ª divisão da Itália ao luxo na Champions: entenda o projeto que transformou o Como
Com o ex-jogador e técnico Cesc Fàbregas no comando do time, clube italiano aposta forte na área comercial para continuar crescendo; estreia na Liga dos Campeões será contra o RB Leipzig
| GLOBOESPORTE.COM / RODRIGO LOIS
A Champions League 2026/27 tem quatro times estreantes, mas a trajetória do Como parece ser singular. O pequeno clube da Itália, que nunca foi campeão da Serie A e deixou para trás os gigantes Milan e Juventus, estava na quarta divisão há sete anos. Nesta quinta-feira, depois da consolidação de seu projeto pouco convencional, faz o primeiro jogo na Liga dos Campeões, contra o RB Leipzig, no Stadio Giuseppe Sinigaglia.
+ Confira a tabela da Liga dos Campeões 2026/27
O ge contou em fevereiro de 2025 parte da história do Como, que virou o novo rico da Itália e o "queridinho" das estrelas de Hollywood. O clube estava quebrado e na quarta divisão do país em 2019, mas voltou à Serie A em 2024. Dois anos depois, alcançou a Champions.
Hoje o clube do extremo norte da Itália é uma força emergente. Investiu quase 130 milhões de euros (R$ 771,5 milhões) na última janela de transferências, segundo o jornal "Gazzetta dello Sport" . A equipe se encontra em quarto lugar na tabela da Serie A, com sete pontos. Em três rodadas, empatou com a Udinese e venceu Napoli e Genoa.
A equipe fez sete amistosos na pré-temporada, incluindo um contra o Arsenal e dois contra o Liverpool. Somando jogos oficiais e não-oficiais, o Como sofreu só uma derrota em 10 partidas.
Cesc Fàbregas: principal pilar do projeto
O ex-jogador espanhol de 39 anos começa a sua quarta temporada como técnico do time principal do Como. Desde novembro de 2023, quando assumiu o comando da equipe de forma interina, passando pela efetivação em julho de 2024, até os dias atuais, Fàbregas sempre foi tratado como pilar fundamental do projeto esportivo do clube.
Sua visão de longo prazo é desenvolver jogadores jovens, organizar uma estrutura esportiva relevante, construir um novo estádio e, em suma, estabelecer o Como como um clube forte e sustentável em todos os sentidos . No campo, um time proativo, que controle o ritmo do jogo, faça pressão alta, e conte com atletas ambiciosos e adaptáveis.
— Entendo as emoções na cidade e no clube. Entendo que o grande destaque aqui é o fato de ser a primeira partida do Como na Liga dos Campeões, mas, para os jogadores, tem de ser um jogo como qualquer outro . O importante para mim é que, aconteça o que acontecer, nós expressemos nossa ideia de futebol. É isso que o futebol significa para mim: cada partida deve ser disputada com a nossa identidade — comentou Fàbregas, na véspera deste jogo contra o RB Leipzig.
Ele participa de decisões que normalmente extrapolam a função de um treinador de futebol. O presidente Mirwan Suwarso descreve Fàbregas como "Football CEO" do projeto. Mas há um detalhe: Fàbregas é de fato um dos acionistas minoritários do clube.
Contratado como técnico até junho de 2028, Fàbregas é quem manda nos aspectos táticos do time profissional. Quando o assunto é contratar, ele tem o mesmo poder de voz que outros diretores do chamado "Conselho de Futebol" do clube, composto por seis pessoas.
O elenco do time italiano mistura jogadores jovens com alguns nomes mais experientes e renomados no futebol internacional. Um grupo que tem agora o goleiro Robert Sánchez e o zagueiro Chalobah, ex-Chelsea, os laterais brasileiros Kaiki Bruno e Yan Couto, o atacante Moise Kean e, como maior destaque, o meia argentino Nico Paz.
O Como pagou 60 milhões de euros ao Real Madrid para manter Nico Paz.
Em anos recentes, o Como contou com o centroavante espanhol Álvaro Morata, o zagueiro Diego Carlos, o lateral Sergi Roberto, ex-Barcelona, o zagueiro francês Varane, entre outros. Porém, o momento desta vez é de nomes ainda promissores , como os pontas Diao e Jesús Rodríguez, assim como o meia Baturina. As contratações obedecem a um modelo de jogo já estabelecido, com um portfólio de jogadores valorizáveis no mercado.
* O mercado de inverno da temporada 2026/27 será apenas em janeiro do ano que vem.
Clube como "parque temático" de luxo
O presidente do Como é o executivo Mirwan Suwarso, a serviço do grupo Djarum, da indústria de cigarro, e um dos maiores e mais poderosos conglomerados da Indonésia, controlado pela família Hartono. O clube de futebol virou propriedade do Djarum em 2019.
Executivo de mídia e entretenimento, Suwarso recebeu dos irmãos Robert e Michael Hartono a missão de ser o responsável pela gestão do projeto. No início, o plano não era transformar o clube em potência nacional, mas sim em cenário para documentários sobre futebol, para a televisão da Indonésia.
Diante das possibilidades econômicas que o Como proporcionava, o plano mudou. Passou a ser alterar a imagem da instituição, deixando o papel de pequeno centenário clube de futebol falido e virando uma marca global de estilo de vida luxuoso.
— Nós não temos metas esportivas. Objetivos esportivos não são mensuráveis quando você está rodando um negócio. E o que fazemos aqui é gerir um negócio — comentou Mirwan Suwarso, em entrevista recente ao site "Spear's", dedicado ao mercado de luxo.
Em seu site oficial, o Como oferece peças de vestuário que vão muito além das tradicionais camisas de futebol. Coleções para corrida de carro, passeio em barco, trilha, alta costura ... Entre as empresas parceiras estão Brioni, Rhude, Hublot e Adidas. O clube também vende passeios de turismo para a região do Lago Como — o pacote "clássico" de três noites custa 3.560 euros, o equivalente a R$ 21 mil.
Keira Knightley, Hugh Grant, Michael Fassbender, Kate Beckinsale e Benedict Cumberbatch são algumas das celebridades de Hollywood já vistas nas arquibancadas do estádio Giuseppe Sinigaglia.
O uso de análises de dados permeia diferentes áreas do clube. Essas análises ajudaram a apontar, por exemplo, problemas de performance nesses anos de subida até a elite do Campeonato Italiano, mesmo quando os resultados não mostravam problemas.
O departamento de recrutamento para o futebol do Como é liderado por Barend Verkerk, que conta com um analista de dados e seis scouts, além de três analistas táticos e dois psicólogos esportivos.
Desafios no futuro, dentro e fora de campo
Depois da estreia hoje contra o RB Leipzig, o Como enfrenta na fase de liga da Champions: Feyenoord (fora), Manchester United (casa), Lens (fora), AEK Atenas (casa), Betis (fora), PSG (casa) e Barcelona (fora). Mas o clube ainda não conseguiu montar um elenco encorpado, que possa aguentar a disputa simultânea da Liga dos Campeões, Campeonato Italiano e Copa da Itália.
A direção do clube trabalha com a perspectiva de superávit, ou seja, rodar no azul, nas duas próximas temporadas. Só que o estádio Giuseppe Sinigaglia, às margens do Lago Como, precisou passar por reforma para atender às exigências das competições da Uefa . Reconstrução de parte da arquibancada, sistema de iluminação novo e ampliação do gramado.
O estádio, que tem capacidade hoje para cerca de 12 mil torcedores, também deve receber novos assentos no ano que vem. Esse tamanho limita os ganhos do clube com receitas de dias de jogo, principalmente na comparação com outros clubes da Itália.
Apesar disso, o Como conseguiu dobrar a receita de bilheteria e aumentar o merchandising em 300%, ao final da temporada 2025/26. O futebol é usado para abrir canais de distribuição e introduzir produtos cada vez mais sofisticados. Mas a direção reconhece que as iniciativas não podem ter "preços exorbitantes" para os habitantes da região, como admitiu o próprio Suwarso, em entrevista à Revista "Undici".