“Matou um no banheiro e um na cozinha”, diz mãe de mulher trans assassinada

Thierre e o marido foram atingidos com cinco tiros, dentro de casa, após desentendimento com casal de vizinhos

| BRUNA MARQUES E GENIFFER VALERIANO / CAMPO GRANDE NEWS


Mãe de Thierre durante entrevista à imprensa, sem mostrar o rosto porque preferiu não se identificar (Foto: Osmar Veiga)

“Matou um no banheiro e um na cozinha', disse a mãe de  Thierre dos Anjos Molina, 33 anos, mulher trans assassinada a tiros junto com o marido Ademar Spacino Júnior, de 38 anos, na manhã desta sexta-feira (5), em uma casa na Rua São Roque, na Vila Taquarussu, em Campo Grande. O suspeito, Deivison Felipe Alves de Brito, de 30 anos, foi preso em flagrante por uma equipe do GOI (Grupo de Operações e Investigações).

A mãe de Thierre, de 60 anos, pediu para não ser identificada. Moradora do Bairro Nhanha, ela estava na casa da filha e conversou com a reportagem, abalada, no local do crime.

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“Eles entraram para matar minha filha lá dentro. Fazia tempo que ele vinha dizendo que ia matar, mas eu achava que era brincadeira, mas não foi, isso daí doeu', afirmou.

Segundo ela, a filha e o genro eram ameaçados havia tempo por Deivison e pela esposa dele, vizinhos do casal. “Eu perdi minha filha, pra mim não tem sentido uma vida dessa, eu perdi meu genro que tem uma família boa, por causa de uma conversa. Foi um crime de ódio, só porque é mulher trans, de certo foi ódio. A vida inteira ela brigava com a minha sobrinha que era quem morava aqui antes. Eles fizeram de abusado que são', disse.

A mãe também contou que tentava tirar o casal do local. “Eles juravam minha filha faz tempo. Minha filha tem família. Eu estava até arrumando uma casa separada para eles, fora daqui. Todo dia ela falava que ia matar', declarou, referindo-se à esposa do suspeito.

Ainda conforme a mulher, a porta da casa foi arrombada e Thierre estava dentro do imóvel quando foi atingida. “Mataram ela lá dentro, ela estava dentro de casa', afirmou. Segundo ela, a filha morava havia seis meses no local e se arrumava para ir ao trabalho. O sapato estava na sala quando o autor chegou.

“Que ele fique na cadeia pelo resto da vida'. Ao ser questionada sobre os desentendimentos, declarou que o suspeito já havia prometido matar Thierre. “Foi um crime de ódio, não tinha desavença com ninguém, era uma pessoa tranquila. Só quando bebia que falava alguma coisa', completou.

O pai de Deivison, de 47 anos, também falou com a reportagem. Ele disse que não sabe exatamente o que aconteceu, mas afirmou que o filho era ameaçado pelo casal que morava nos fundos da casa.

“Tinha registrado boletim de ocorrência. Ele falou que quando a esposa saía para trabalhar eles vieram com pedaço de pau para agredir ela e isso aconteceu. Mas já vinha brigando há muito tempo. Acho que a briga era por conta de som alto. Meu filho é trabalhador, chegava para descansar e estava essa bagunça aí. Ele falou que o pessoal do fundo é trans, mas eu aconselhei bastante ele', relatou.

Questionado sobre a suspeita de crime de ódio por identidade de gênero, o pai negou. “Estou acabado, acabou com a minha família, com a dela', disse.

Segundo ele, após o crime, Deivison foi para a casa da mãe, que mora na região, e depois se apresentou à polícia. “Minha nora fala que ele fez errado, era para esperar 48 horas para se apresentar, mas não tem como, ele fez, tem que pagar. Ele estava na casa da mãe dele depois do que aconteceu, a mãe dele me ligou e disse o que tinha acontecido, perdi o chão', afirmou.

Familiares tentavam abrir a casa do casal assassinado durante a manhã. Um caminhão chegou ao local para recolher os pertences das vítimas.

Entenda – Conforme o boletim de ocorrência, a esposa de Deivison contou à polícia que as vítimas teriam passado a noite ingerindo bebidas alcoólicas e usando droga, o que, segundo ela, era prática habitual do casal. Ela também informou que já havia registrado boletim de ocorrência por ameaça contra as vítimas em 26 de março.

Ainda segundo o registro policial, por volta das 5h30, de hoje, quando saía de casa para trabalhar, a mulher teria sido abordada de forma agressiva pelas vítimas. Uma delas, conforme a versão da esposa do autor, tentou agredi-la com um pedaço de madeira, enquanto a outra teria dito que pegaria uma faca para matá-la.

Deivison alegou à polícia que tentou intervir para proteger a esposa. Segundo o boletim, ele afirmou que Thierre tentou agredi-lo com um pedaço de madeira. Em seguida, ele efetuou disparos. O suspeito também declarou que Ademar apareceu com uma faca nas mãos, momento em que fez novos disparos.

Após o crime, Deivison teria entrado em casa, deixado a arma de fogo no imóvel e fugido na motocicleta da esposa por medo de ser agredido por populares e vizinhos. A esposa dele disse aos policiais que o suspeito estaria na casa da mãe, na Rua Brigadeiro Machado, no Residencial Ana Clara. A equipe foi até o endereço e encontrou Deivison, que foi encaminhado à delegacia junto com a esposa.

A equipe de perícia apreendeu, na residência do autor, um revólver preto, sem marca aparente, com capacidade para cinco munições. Também foram recolhidas duas cápsulas vazias e nove munições intactas. Na casa das vítimas, foram encontradas quatro cápsulas e três projéteis. O celular do suspeito também foi apreendido.

A perícia identificou três perfurações de entrada nas costas de Thierre e duas perfurações na região do tórax de Ademar. As duas vítimas morreram no local.

Vizinhos disseram à reportagem que não ouviram os disparos e só perceberam a movimentação policial. Na vila de casas onde o crime ocorreu, a equipe tentou conversar com moradores, mas ninguém quis falar com a imprensa.

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