
Mato Grosso do Sul
MS é o terceiro estado com maior índice de mortes violentas de pessoas LGBTI+
Dossiê aponta que estados com foco no agronegócio tendem a ser mais violentos
| CORREIO DO ESTADO / GLAUCEA VACCARI
Mato Grosso do Sul é o terceiro estado do País com maior índice de mortes violentas de pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e pessoas intersexo (LGBTI+).
Os dados constam do Dossiê de Mortes e Violências contra LGBTI+ no Brasil, com informações referentes ao ano de 2021.
Em termos proporcionais à sua população, Mato Grosso do Sul tem 3,17 mortes por milhão de habitantes, ficando atrás apenas de Alagoas (4,75 mortes por milhão) e Mato Grosso (3,36 mortes por milhão).
O índice estadual também está acima da média nacional, que foi de 1,48 em 2021.
Em números absolutos, Mato Grosso do Sul registrou nove mortes violentas de pessoas LGBTI+.
Conforme o Observatório de Mortes e Violências contra LGBTI+, em Alagoas, o alto índice pode ser explicado pelo fato da região Nordeste ser historicamente marcada pelos indicadores socioeconômicos, como renda, escolaridade, acesso a serviços públicos e expectativa de vida inferiores ao restante do país, com uma parcela significativa em situação de vulnerabilidade.
Ainda segundo o levantamento, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso se distanciam do caso alagoano, pois ambos têm índice de desenvolvimento humano (IDH) considerado alto.
No entanto, a região Centro-Oeste, consiste na principal fronteira agrícola do país, caracterizada por elevados índices de violência, apesar de alguns indicadores socioeconômicos mais favoráveis.
'Áreas ligadas ao agronegócio são frequentemente identificadas como locais violentos, especialmente em função dos conflitos pela terra estabelecidos entre os exploradores e as populações tradicionalmente ocupantes desses locais', diz o dossiê.
O dossiê não traz recortes regionais sobre o tipo de morte violenta por estado.
Brasil
No Brasil, em 2021 houve pelo menos 316 mortes violentas de pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e pessoas intersexo (LGBTI+).
Esse número representa um aumento de 33,3% em relação ao ano anterior, quando foram 237 mortes.
Entre os crimes ocorridos, 262 foram homicídios (o que corresponde a 82,91% dos casos), 26 suicídios (8,23%), 23 latrocínios (7,28%) e 5 mortes por outras causas (1,58%).
As violências ocorreram em diferentes ambientes, como doméstico, via pública, cárcere e local de trabalho.
Os dois grupos que sofreram mais violência, reunindo 90,5% dos casos, foram os homens gays (45,89%), com um total de 145 mortes; e as travestis e mulheres trans (44,62%), com 141 mortes.
As mulheres lésbicas representam 3,80% das mortes (12 casos); os homens trans e pessoas transmasculinas somam 2,53% dos casos (oito mortes).
Pessoas bissexuais (0,95%) e pessoas identificadas como outros segmentos (0,95%) tiveram 3 mortes cada grupo. Houve quatro pessoas cuja orientação sexual ou identidade de gênero não foi identificado, representando 1,27% do total, com 4 casos.
A idade das vítimas variou de 13 a 67 anos em 2021, sendo que a maioria das mortes ocorreu com jovens entre 20 e 29 anos (96 casos, o que representa 30,38% do total)
Segundo o dossiê, a maior parte das mortes ocorreu por esfaqueamento, com 91 casos (28,8% do total), em segundo lugar vieram mortes por arma de fogo, com 83 casos (26,27), seguida por espancamento, com 20 casos (6,33%), e asfixia, com 10 casos (3,16%).
No total, foram identificadas 26 diferentes causas mortis de LGBTI+ no país.
O levantamento revelou que o maior número de casos de suicídio ocorreu entre travestis e mulheres trans, com 38,46% dos casos (10 pessoas), e homens gays, com 30,77% do total (8).
Em seguida, estão os homens trans e as pessoas de outros segmentos, com dois casos cada.
De acordo com as entidades que elaboraram o dossiê, o resultado “evidencia possíveis danos causados pela LGBTIfobia estrutural, que impacta significativamente a saúde mental das pessoas, podendo levar a intenso sofrimento ou mesmo à retirada da própria vida por pessoas em situação de vulnerabilidade'.
Como o levantamento depende do reconhecimento da identidade de gênero e da orientação sexual das vítimas pelos veículos que reportam as mortes, muitos casos de violências praticadas contra pessoas LGBTI+ acabam não entrando na contabilização.
O dossiê, produzido por meio do Observatório de Mortes e Violências contra LGBTI+, é resultado de uma parceria entre a Acontece Arte e Política LGBTI+, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) e a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT).
Realizado por meio de uma base de dados compartilhada entre essas três instituições, o trabalho contém os registros dos casos encontrados em notícias de jornais, portais eletrônicos e redes sociais.

