
Mato Grosso do Sul
Campo Grande recebe sessões de cineconcerto com música experimental ao vivo
Dupla francesa realiza, na Capital, sessões de cineconcerto com música experimental ao vivo para “Metropolis', de Fritz Lang, e “Marinheiro de Encomenda'
| CORREIO DO ESTADO / MARCOS PIERRY
Dois gênios do cinema – o diretor austríaco Fritz Lang (1890-1976) e o comediante norte-americano Buster Keaton (1895-1966) – revistos por dois artistas franceses que exploram a recriação de imagens e sons.
Campo Grande entrou na rota da turnê que Jérôme Lopez e Xavier Garcia realizam no Brasil durante este mês.
No programa, a dupla faz a projeção de dois longas-metragens dos anos 1920 enquanto executa a trilha sonora, ao vivo, com muita experimentação e improvisos a partir de referências que vão da chamada vanguarda histórica à música eletrônica contemporânea.
Depois da passagem por Curitiba, que começou no domingo e se estendeu até ontem, Lopez e Garcia aportam hoje em Campo Grande para uma curta temporada de apresentações e oficinas.
Com a proposta do que chamam de cineconcerto, os artistas vão mostrar sua música original, criada na hora, para duas produções fundamentais, que, de certa forma, ocupam extremos opostos na história do cinema.
Hoje, às 19h, na Sala de Música do Sesc Cultura (Av. Afonso Pena, nº 2.270), será projetado “Metropolis' (1927, 148 min), de Fritz Lang, que dialoga fortemente com a estética do expressionismo alemão e estabelece um cânone para a ficção científica e a atmosfera distópica que vigora ainda hoje em muitos trabalhos do gênero que chegam às telas.
Amanhã, no mesmo local e horário, é a vez de “Marinheiro de Encomenda' (1928, 71 min), com direção de Charles Reisner (1887-1962), estrelado por Buster Keaton.
Longe de ser considerado um dos melhores filmes de Keaton, um gênio da comédia, que protagonizou clássicos como “A General' (1926) ou “O Homem das Novidades' (1928), “Steamboat Bill Jr.', título original, com o qual “Marinheiro' vem sendo divulgado para a sessão especial de amanhã, tem lá seus apelos.
Além da presença sempre cativante e surpreendentemente cômica de Keaton, o filme guarda para o fim a sequência que é tida como uma das mais hilárias da carreira do ator, quando um ciclone varre tudo em River Junction, um lugarejo às margens do Rio Mississippi, levando pelos ares, inclusive, o Bill Jr. do título original, interpretado pelo astro da comédia burlesca.
No sábado, também às 19h, Jérôme Lopez e Xavier Garcia repetem o cineconcerto com “Metropolis' no Museu da Imagem e do Som (MIS). Repeteco bem entre aspas, já que a dupla, embora lance mão de bases e outras programações pré-gravadas durante as performances, gosta mesmo é de improvisar com a utilização de instrumentos acústicos e traquitanas eletrônicas. O MIS localiza-se na Av. Fernando Corrêa da Costa, nº 559. Todas as sessões serão gratuitas.
OFICINAS
Parte do laboratório sonoro e visual de Lopez e Garcia será compartilhada com os participantes das oficinas que os dois vão ministrar para jovens do projeto Cidadania Viva, da Secretaria de Estado de Cidadania e Cultura (Secic), e alunos do Sesc Lajeado. Serão três atividades diferentes:
O “Smartfaust workshop' propõe exercícios práticos em torno da criação de sons com telefones celulares, a partir de um dispositivo chamado Grame, e a composição de uma peça para orquestra com o material desenvolvido coletivamente.
A oficina “Criação de som em torno do filme-concerto' busca prospectar sons para a remusicalização de trechos de filmes, explorando a produção de loopings musicais. E a oficina criativa com a video malette apresenta esse equipamento de nome curioso.
Trata-se de uma ferramenta para a produção de vídeo e áudio ao vivo. Consiste em uma mesa de vidro, iluminada e retrofilmada, capaz de processar o fluxo de vídeo em tempo real antes de enviá-lo para o projetor.
A dinâmica é conduzida, uma vez mais, em formato coletivo. Os participantes desenham, pintam, produzem e reaproveitam fotografias e outros tipos de registro. A video mallette dispõe de um banco de imagens e sons que também costuma ser utilizado.
ARFI
Os dois multiartistas integram a Associação de Pesquisa do Folclore Imaginário (Arfi, na sigla em francês), com sede em Lyon.
Criada em 1978, a partir de experimentações com sonoridades como o free jazz e as pesquisas dos cineconcertos, reúne 18 criadores que têm no cruzamento das fronteiras estéticas a sua base de trabalho.
A poesia, o vídeo, as artes plásticas e outras linguagens. A proposta, em resumo, é permanecer aberto a misturar tudo conforme a intuição criativa e palmilhando os desafios formais que acaso surgirem durante o voo livre das improvisações, ao sabor do que hoje se conhece também como hibridismos ou hibridizações.
Pelas patentes apresentadas no site da Arfi, Jérôme Lopez é o videomaker do coletivo, além de músico percussionista.
Com uma extensa lista de colaborações, que inclui o britânico Brian Eno, um dos papas da estética minimal na arte sonora, Xavier Garcia responde pela manipulação do sampler e do laptop durante as apresentações.
Ao se debruçar sobre clássicos do cinema, como os que poderão ser vistos em Campo Grande, a dupla demonstra o tamanho da ousadia e da liberdade criativa que são postas à prova na revisão de obras consagradas.
“Metropolis' e “Marinheiro de Encomenda', cada um por suas particularidades e excelências, sobrevivem como verdadeiros monumentos da arte cinematográfica, mesmo datando de um período, a segunda metade dos anos 1920, em que o som ainda era uma novidade não muito bem-vinda por gigantes como Charlie Chaplin (1889-1977).
METROPOLIS
Com seu apuro visual na concepção dos cenários, em escala real e em maquetes, a fotografia de “Metropolis' leva a assinatura de vanguardistas como Walter Ruttman (1887-1941).
A história versa sobre um mundo subterrâneo – a “stadt der arbeiter' (“cidade dos operários') – em que os indivíduos são explorados para garantir o fausto do andar de cima, com o seu “klub der söhne' (“clube dos filhos'), onde se encontra o mauricinho Freder (Gustav Fröhlich).
Filho do magnata que lidera o status quo de opressão na metrópole, Freder um dia conhece Maria (Brigitte Helm), que pertence ao subsolo. Apaixona-se e, por meio do discurso da heroína, conhece, enfim, a dura realidade do andar de baixo. É quando o rapaz desafia a autoridade do patriarca.
O roteiro de Thea von Harbou (1888-1954), repleto de manipulação e de um romantismo por demais ingênuo, foi considerado de inspiração nazista, acusação fundamentada no fato de a escritora, que era casada com Lang, ter aderido, anos depois, à ideologia.
Mesmo assim, a potência visual do mundo criado pelo diretor e seus parceiros parece não ter arranhado a moral de “Metropolis'.
A versão fake de Maria, construída em madeira e metal, é uma imagem que permanece no topo da iconografia criada pelas imagens cinematográficas.
Por exemplo, um cartaz com a figura antológica da personagem de Brigitte Helm mimetizada pode ser visto diariamente no quarto do Tigrão (Matheus Abreu) da telenovela “Quanto Mais Vida, Melhor!'.
Como o robô original, o primeiro da história do cinema, foi parcialmente destruído durante as filmagens, uma réplica, feita em 1970, pelo mesmo artista que criou a matriz, Walter Schulze-Mittendorf (1893-1976), fica em exposição permanente na Cinemateca Francesa.
TRILHAS
Já a trilha sonora original de Gottfried Huppertz (1887-1937), que, apesar de eivos modernos, reza na cartilha do modelo reiterativo, confirmando o que se vê nas imagens, não para de ganhar diversas partituras concorrentes.
James Duhamel, Sandro Forte, Abel Korzeniowski, Peter Osborne, Bern Schultheis e Benjamin Speed são alguns dos músicos que sonorizaram as imagens de “Metropolis'. A versão do Giorgio Moroder, de 1984, tem direito até a participação de Freddie Mercury (1946-1991).
Lopez e Garcia, por sua vez, antecipam apenas que vão fazer um remix da música de Richie Hawtin, criador techno, com o trabalho do pioneiro greco-francês Iannis Xenakis (1922-2001).
No lugar da trilha original de “Marinheiro de Encomenda', composta por Gaylord Carter (1905-2000), no estilo das pianolas que embalavam a era silenciosa, a dupla de Lyon esconde mais o jogo e promete apenas uma “mistura de música techno e contemporânea' na redescoberta do burlesco. É pagar para ver.
Depois de Campo Grande, eles seguem para Manaus (do dia 16 a 19), Niterói (20) e Rio de Janeiro (21 e 22). A turnê foi viabilizada pela Embaixada da França, Institut Français, Aliança Francesa, Ville de Lyon e Spedidam.

