Constrangimento!

Vão à procura da merenda escolar. Assim fica difícil aprender a ler e a escrever corretamente a língua portuguesa

| CORREIO DO ESTADO / DA REDAçãO


 Antonio Carlos Siufi Hindo - Promotor de Justiça aposentado

Li dias atrás uma interessante lição que o ex-ministro Ozires Silva ouviu de um colega de academia sobre um tema que o preocupava. Por que o Brasil não teve ainda um prêmio Nobel, já que Chile, Colômbia, Argentina e Uruguai possuem seus nacionais nesse elenco. 

A resposta veio rápida e fulminante. Não tem porque o Brasil mata os seus heróis, sentenciou o seu colega.

A resposta não tratou de nada inusitado. Resulta em uma verdade inexorável. A educação em todo o território nacional sempre foi o reflexo amargo do nosso atraso em termos de desenvolvimento integrado.

Os nossos governantes sempre relegaram esse tema para o terceiro andar. As exceções são raríssimas. Mas tem uma explicação contundente. 

Esse tema preocupante retroage à época colonial, quando a escravidão negra massacrou os nascidos nestas entranhas, bem como outros tantos que não puderam sentar em um banco escolar.

Essa sina maldita segue o seu roteiro macabro nos dias que correm. Nos interiores longínquos do nosso vasto território nacional, as nossas escolas públicas são assemelhadas às masmorras. Desprovidas de conforto e sem nenhum recurso audiovisual para o melhor aprendizado.

Trata-se de uma evidência cristalina e que não entusiasma as nossas crianças ávidas pelo saber. O comparecimento dessa clientela às salas de aula tem nome, a fome.

Vão à procura da merenda escolar. Assim fica difícil aprender a ler e a escrever corretamente a língua portuguesa. Nas disciplinas como a Matemática e a Ciência, que exigem um raciocínio mais apurado, a desgraça resulta ainda mais acentuada.

Em outras disciplinas, a sequência não resulta diferente. Esse contingente humano não conhece nada a respeito da nossa história e dos nossos heróis.

Talvez resida nesse particular o constrangimento a que se submeteu Ozires Silva. Sem um preparo adequado e polido não podemos realmente formar cidadãos capazes, profissionais competentes, inteligências voltadas para servir o semelhante.

Um exemplo relevante acoberta o nosso entendimento. Vamos apontar entre tantos heróis que escreveram a nossa história a figura sempre impoluta de Tiradentes, o herói máximo da nossa nacionalidade. Nossas crianças não sabem o seu nome completo.

Se avançarmos um pouco mais a respeito das causas que motivaram a Inconfidência Mineira da qual foi o seu líder máximo a mudez resultará estampada fortemente em suas faces. Coisa horrorosa! Cantar o Hino Nacional é um privilégio para poucos. 

Assim fica muito difícil apontarmos uma candidatura para o prêmio Nobel.

A boa educação escolar e a formação moral, cultural, social e política das nossas crianças precisam estar presentes durante todo o curso da vida estudantil, porque a toda evidência representa o esplendor do nosso futuro grandioso e garantidor de grandes conquistas.

Fica o tema como algo para uma reflexão criteriosa, santa e edificadora dos melhores propósitos. A rica e próspera nação brasileira por meio de seus filhos mais ilustres oferecem essa súplica a todos quantos possuem responsabilidades nessa principal área para a formação dos cidadãos. 

A educação não pode ser apenas um discurso de retórica. Sua praticidade resulta imperiosa. Assim evitaremos o constrangimento.



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