"Vamos dar bicho!": advogada assume gestão e quer transformar Bangu no maior clube de bairro do Brasil

Luciana Lopes devolve premiação no vestiário, sobe da segunda para a primeira e assume protagonismo onde o pai, atual presidente da Ferj, dava as cartas nos anos 1990

| GLOBOESPORTE.COM / RAPHAEL ZARKO


Luciana Lopes no vestiário reformado do Bangu — Foto: Raphael Zarko

Aos 12 anos, numa viagem para Salvador, Luciana levou uma bolsa com dinheiro em espécie para um jogo do Bangu. Não fazia muita ideia de que carregava o bicho — nome popular da premiação por vitória em uma partida de futebol. Hoje, anos depois, decidiu devolver o bicho em Moça Bonita numa das primeiras medidas desde que assumiu a gestão no tradicional clube da Zona Oeste do Rio.

— Logo que a gente chegou, no acesso (campanha da segunda para a primeira divisão), a gente começou a perder, perder. Comecei a entrar no desespero. Aí falei, as pessoas fazem as coisas por algum motivo. Ou é por amor, e aqui ninguém teve tempo de ter amor ao clube, ou é por dinheiro. Então, pelo amor de Deus, vamos dar o bicho, gente! Só funciona com bicho. E foi aí que a coisa começou a deslanchar.

Advogada desportiva com longa estrada por clubes brasileiros, Luciana Lopes foi chamada pelo seu tio — e ainda presidente do Bangu — Jorge Varella para ajudar na gestão e tomar conta do clube depois da queda para a segunda divisão no final do Carioca do ano passado.

Ao lado do ex-goleiro e marido Eduardo Allax, ela segue o caminho do pai Rubens Lopes, que foi médico e presidente do Bangu nos anos 1990. Ele preside a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro desde 2002.

— Tinha a sombra do meu pai aqui, porque é óbvio que meu pai tem história aqui. Mas meu pai não estava sabendo de nada. Hoje escuto muito pouco que sou filha do meu pai — conta Luciana, que mira alto.

— Eu acho que o Bangu é o maior clube de bairro do Brasil — disse Luciana, horas antes da partida contra o Flamengo, na estreia do Carioca, de volta à primeira divisão.

O ge acompanhou o dia de preparação no estádio de Moça Bonita, que passou por pintura, melhorias e instalou painel de LED como placar eletrônico. A administração retirou mais de uma dezena de caçambas de lixo do estádio, que lotou para a vitória em cima do Flamengo por 2 a 1, repetindo um placar que aconteceu na última partida entre os dois clubes no mesmo local. Quando Eduardo era o goleiro do Bangu.

— Ela (Luciana) é uma gestora exigente. É difícil de acompanhar o raciocínio dela — comenta Eduardo, que fez base no Fluminense e defendeu o Atlético-MG antes de pendurar as luvas e ter passagens por diversos clubes do Rio como treinador.

"Falta só o caixa da Leila"

Para a primeira partida do estadual, Luciana recebeu altas propostas de venda do jogo para Belém, Cariacica, Brasília e Manaus. Mas decidiu apostar na que considerava remota chance de vencer o poderoso Flamengo. "É o sub-20, mas é o sub-20 campeão do mundo", lembrava. A ideia era preparar melhor para o jogo contra o Madureira - por ironia, o Bangu bateu o Flamengo, mas perdeu para o Tricolor Suburbano.

— O Bangu nunca teve luxo, mas era organizado. A gente quer trazer a torcida de volta — diz Luciana, que lembra dos tempos de criança, quando acompanhava o pai na época de Castor de Andrade.

— Tenho essa memória muito forte dessa época. Vinham vários garçons na tribuna. Serviam canapés. Ele trazia mordomos particulares. Era assim.

No jogo contra o Flamengo, o Bangu recebeu autoridades municipais e do governo estadual, influencers, cantores. Serviu pipocas, bebidas e salgadinhos pela área da social. Em três jogos, o Bangu venceu dois e se manteve na briga para se classificar para a segunda fase do Carioca.

A reformulação do Bangu passou por parceria com o sindicato de jogadores do Rio para treinar em Guaratiba num centro de treinamento bem equipado e pela rede de contatos de Eduardo Allax, que treinou em todas as divisões do futebol do Rio e entrou em contato com outros times pequenos para conseguir empréstimo de jogadores e montar novo time.

O Bangu teve em 2004, logo em seguida à saída de Rubens Lopes, uma mulher na presidência, Rita de Cássia Trindade. A presença forte de Leila Pereira à frente do Palmeiras é outro exemplo para Luciana no Bangu.

— É inegável a qualidade da gestão dela. Não só pelos resultados. É um marco pra essa mudança da presença de mulheres. Eu acho que quanto mais mulheres se encorajando melhor, porque a gente tem uma visão completamente diferente de gestão. O pessoal fala: "está igual a Leila, né, doutora!" Eu falo: "falta só o caixa da Leila" — brinca.



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