Prêmio faz homenagem à dama da viola

Festival de escolas da Rede Estadual de Ensino vai distribuir R$ 8 mil e 10 violões para alunos que apresentarem as melhores canções

| CORREIO DO ESTADO / MARCOS PIERRY


A Rede Estadual de Ensino (REE) possui mais de 370 escolas e 250 mil alunos. Um número expressivo desses estudantes, como quase toda a juventude brasileira, gasta boa parte de seu tempo livre fazendo ou ouvindo música. 

Até o dia 27, os talentos musicais de qualquer cidade matriculados na REE poderão se inscrever no 1º Festival da Canção das Escolas Estaduais de MS – Prêmio Helena Meirelles.

A iniciativa partiu do Núcleo de Arte e Cultura (Nuac) da Secretaria de Estado de Educação (SED) e busca destacar o protagonismo dos alunos por meio da arte da canção popular. As inscrições estão abertas desde 21 de março, e no dia 5 de julho será divulgada a lista com todas as composições selecionadas. 

Os estudantes concorrem, no total, a R$ 8 mil em prêmios em dinheiro, além de 10 violões.

As apresentações serão realizadas nos dias 12 e 13 de agosto, das 16h às 21h, na Concha Acústica Helena Meirelles. A grande Dama da Viola da música regional brasileira, que dá nome ao prêmio e ao local da competição, completaria 98 anos de idade justamente em 13 de agosto. 

Por isso, a programação do festival pretende também prestar homenagem a Dona Helena, que nasceu no ano de 1924.

PRÊMIOS

Serão distribuídos quatro prêmios – três na categoria Melhor Canção e uma quarta láurea está reservada para o estudante ou grupo que se sagrar Melhor Intérprete. 

Os vencedores em Melhor Canção vão ganhar, conforme a classificação: R$ 4 mil (primeiro lugar); R$ 2 mil (segundo lugar); e

R$ 1 mil (terceiro lugar). A performance considerada Melhor Intérprete também levará R$ 1 mil em dinheiro.

Além desses prêmios, os 10 finalistas vão receber, cada um, um troféu, um violão e um certificado. Todas as composições deverão ser inéditas, em letra e melodia. A temática é livre.

No site da Secretaria de Educação, uma plataforma específica (www.sed.ms.gov.br/festivaldacancao) apresenta um tutorial completo do Prêmio Helena Meirelles, que inclui regulamento, link para ficha de inscrição e o passo a passo para os estudantes, professores e responsáveis que quiserem incentivar os jovens talentos. 

Mais informações podem ser obtidas por e-mail: [email protected] ou por telefone: (67) 3323-7212.

POTENCIAL EDUCATIVO

Junta-se à equipe da SED, na realização do 1º Festival da Canção das Escolas Estaduais de MS, a Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul (FCMS), responsável pela gestão da Concha Acústica Helena Meirelles, em uma parceria que envolve ainda a Fundação de Desporto e Lazer de Mato Grosso do Sul (Fundesporte) e a Fundação Estadual Jornalista Luiz Chagas de Rádio e TV Educativa de Mato Grosso do Sul (Fertel).

“O festival tem por objetivo explorar o potencial educativo e social da música por meio de suas diversas ramificações e estilos, estimulando e possibilitando novos talentos musicais, compositores e intérpretes da Rede Estadual de Ensino', informa a produção do prêmio em comunicado oficial.

A DAMA

Helena Meirelles nasceu – em Campo Grande ou em Nova Andradina, não se sabe ao certo – em uma sexta-feira 13, e tornou-se internacionalmente conhecida após figurar com destaque nas páginas da revista norte-americana Guitar Player, em 1993.  

Teriam partido de ninguém menos que Eric Clapton, o grande guitarrista britânico considerado o “deus da guitarra', o voto e os argumentos que fizeram Dona Helena integrar a lista dos 101 instrumentistas homenageados pela publicação.

Um pôster encartado na revista estampava a palheta de feras como Jimi Hendrix, B.B. King e George Benson. Na imagem, a partir do ensaio fotográfico de Erik Butler, somente a dama da viola caipira e duas outras mulheres – a roqueira Lita Ford, dos EUA, e a canadense K.D. Lang.

“COBRA BRABA'

“Eu nasci em 1924. A minha tataravó é índia, pegada no mato do Paraná. A mãe do meu pai era paraguaia. O pai do meu pai era mineiro, o pai da minha mãe era paraguaio e minha vó era paulista. Eu tenho sangue de tudo o que é bicho. E bicho perigoso, venenoso. Porque eu fui cobra, fui braba'.

É assim que a artista se apresenta, mirando a câmera com a expressão séria, que poucas vezes abandonava o seu semblante, no documentário “Dona Helena' (2006), dirigido por Dainara Toffoli. 

O nome de Helena Meirelles chegou ao conhecimento da Guitar Player graças a um de seus sobrinhos, Mário de Araújo, filho da irmã Natália, que enviou uma fita com gravações caseiras para a revista.

A partir daí, com o poder de repercussão da indústria cultural dos EUA e sua enorme capacidade de erguer e derrubar carreiras, foi só questão de tempo. 

A cabocla matuta criada na Fazenda Jararaca, que aprendeu a tocar sozinha aos nove anos, escondendo-se da fúria repressora do pai, finalmente se tornaria destaque em jornais, revistas e programas de tevê de todo o País, faria shows concorridos na cidade grande, gravaria discos. Seria, enfim, uma estrela.

FEZ DE TUDO

E foi tudo muito rápido para quem fugiu de casa aos 16 anos, com o primeiro marido, e havia passado mais de cinco décadas virando noites na zona do meretrício de cidades como Bataguassu (MS) e Presidente Epitácio (SP), localizadas nas margens opostas do Rio Paraná.  

Seu programa nos bordéis era tocar para a clientela, sempre acompanhada de doses e mais doses de pinga e do fumo mascado, outro companheiro inseparável até sua partida, em 28 de setembro de 2015, por causa de uma pneumonia.

Mas Dona Helena fez de tudo na vida. Foi lavadeira, benzedeira, parteira. Só não foi capacho de ninguém, e punha sua arte acima de tudo.  

As canções que ela tocava desde menina e as composições que vieram depois são duas facetas muito parecidas de uma mesma moeda, apresentada em seus quatro discos lançados e em antológicas apresentações ao vivo, de norte a sul do Brasil.  

Um repertório bastante representativo da música regional de fronteira do Cerrado, que apresenta uma diversidade de gêneros, como o rasqueado, o chamamé, a guarânia e a polca paraguaia, e cala fundo no coração de quem carrega na alma o sentimento pantaneiro.

EXIGENTE

Os quatro discos, lançados entre 1994 e 2002, venderam aproximadamente 100 mil cópias. De ouvidos aguçados e exigentes, Dona Helena não ficou satisfeita com o resultado do quarto trabalho, “Ao Vivo – De Volta ao Pantanal', o primeiro a ser lançado fora da Eldorado. 

Há um quinto registro em disco, “Os Bambas da Viola', com a sua participação apenas em uma das faixas.



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